2020: O PRIMEIRO DE TODOS OS ANOS DO RESTO DA NOSSA VIDA

2020: O PRIMEIRO DE TODOS OS ANOS DO RESTO DA NOSSA VIDA

20
JAN
2021

A aparente consistência do mundo foi profundamente comprometida durante este ano e, não será dramático afirmar que 2020, este é o primeiro de todos os anos do resto da nossa vida. 

Observemos os fenómenos precedentes ao ponto de viragem e a relação destes, com a consciência do homem e a projeção das suas ações na sociedade: enquanto tecnologia, a revolução digital mitigou o distanciamento físico e democratizou o conhecimento; porém, consigo trouxe questões relacionadas com a segurança a uma escala global e também, a "goglelização" científica popular; catástrofes ambientais devido à incorreta gestão ambiental pelos centros de decisão, governos e empresas que durante décadas moralizaram o uso e o abuso dos recursos naturais; os antagonismos geopolíticos constituíram um meio de instabilidade assim como, as tensões sociais provenientes de conflitos raciais e religiosos. Os acontecimentos por esse mundo fora têm mostrado como as desigualdades se agudizaram e são o embrião de movimentos ativistas como o Black Lives Matter e o Me Too. Era suposto termos uma sociedade mais equitativa.

A pandemia pela Covid-19 põe travão a fundo ao ritmo de vida das pessoas e ao normal funcionamento das instituições, atirando-os para um estado de morte iminente. A proliferação do vírus, o seu impacto na saúde física e os subsequentes efeitos económicos e sociais, afetou indiscriminadamente toda a sociedade e removeu o guarda-chuva de privilégios a que determinados países sistematicamente se encontravam protegidos. A incerteza sobre o futuro passou a ser um dano colateral com uma dimensão universal, fruto da perda de valor nas cadeias económicas e do espectro de futuras dificuldades, falências de empresas e particulares. Enquanto assistimos a esta complexa derrocada do sistema, aumenta o sentimento de insegurança e de medo, com profundas implicações na felicidade e saúde mental das pessoas.

O ano de 2020 parecia vir a ser de crescimento, tendo em conta o incremento no consumo interno, impulsionado pela conjuntura positiva de alguns setores da economia portuguesa. O turismo e o crescimento das exportações prometiam um ano de ouro, também para a ótica. A confiança dos consumidores alavancaria a procura em todas as áreas do retalho e o nosso, pela sua especificidade e associação ao conforto e saúde, não ficariam atrás. A visão é uma distinta capacidade da natureza humana e assume com a revolução digital, um papel ainda mais determinante. A história do mundo está repleta de desastres que, à semelhança desta pandemia, causaram disrupções nos ciclos económicos e dizimaram populações. O estado de emergência e o confinamento que teve início na segunda metade de março, afetou a procura interna e teve um impacto negativo no primeiro semestre provocando uma quebra de vendas. A nossa organização sofreu uma quebra de cerca 30% no volume das vendas. Este resultado deveu-se em grande parte aos meses de abril e maio. A convicção da responsabilidade social que representa a atividade, levou a que não encerrássemos nenhuma das lojas, com exceção das que, por força da sua localização assim o obrigaram. No mês de junho, enquanto a sociedade se debatia com o efeito do encerramento compulsivo, do número de infetados, das mortes e do medo, a ótica na sua generalidade, reiniciou a atividade comercial com uma pujança incomparavelmente superior à maioria de outro retalho. Isso veio afastar o assombramento de falências e do desemprego.

Encontrámo-nos preparados para amenizar o risco de um ano que se aproxima? Até a este momento para o ano de 2021, as últimas previsões do Fundo Monetário Internacional apontavam para um saldo negativo de 2,7% para Portugal. Este mesmo indicador do FMI, face às primeiras previsões, assinalou uma melhoria das condições económicas para o ano corrente. Em primeiro lugar é preciso que a vacina venha a comprovar a sua eficácia e o governo faça o seu planeamento e distribuição totalmente controlado. De seguida, é fundamental que os apoios do estado consigam resolver as necessidades da maioria das empresas, o que infelizmente me parece difícil. As ajudas económicas terão o seu termo e o pagamento de impostos, ainda que repartidos, será acumulativo. As moratórias bancárias e as rendas, deixarão de ser prorrogadas e se o desemprego atingir proporções inesperadas, aumentará a pressão sobre a tesouraria das empresas. Os riscos da incerteza económica irão obrigar a decisões de gestão para as quais dificilmente estaremos preparados. As medidas disponibilizadas pelo governo para apoio à economia não deixam de ser um paliativo. Essencialmente precisaremos de consumidores com dinheiro na mão e com confiança para gastar. Este será o intrincado puzzle que os governos terão que resolver. Independentemente da reputação que cada uma das organizações possui, acautelar uma tesouraria estável, quer pelo recurso a fundos próprios, quer por via do financiamento bancário, ou ainda por outras medidas de apoio, parece ser a estratégia mais sensata. Face à incerteza económica os gestores precisarão de estabilidade emocional para racionalmente avaliarem o risco na tomada de decisões. Não existe um manual de pronto-socorro para cada tipologia de empresas. Este setor apresenta caraterísticas específicas que derivam da natureza híbrida do negócio, saúde e comércio. São fatores que lhe conferem consistência. A duradoura construção de relação entre o profissional de ótica e o cliente é o elemento chave, gerador de confiança. A grande mudança de atitude que tem vindo a ocorrer nos hábitos do consumidor, não alienará o valor da confiança no momento da decisão. Continuo convicto que o caminho da retoma será mais fácil para as empresas cuja cultura esteja assente naquele valor e na transparência de processos. Infelizmente não poderemos ter certezas, mas para a sanidade e construção do futuro, é preciso continuar a lutar com a mesma convicção de sempre.

A pandemia veio salientar a interdependência dos mercados. O confinamento paralisou a sociedade, comprometeu a livre mobilidade de pessoas e em cadeia, todos os outros setores e subsetores económicos foram afetados. Numa última previsão para o ano de 2021 para Portugal, a OCDE avança com um crescimento de 1,7% suportado pelo aumento do consumo interno. Uma equação difícil se tivermos em conta os números do desemprego.
Em tempos de crise, um provável refúgio dos consumidores no nosso setor é o mercado low-cost. Aconteceu em 2009 com Crise da Dívida Soberana, aonde a oferta de preços baixos ganhou balanço e absorveu uma fatia do mercado. Procuramos encontrar um caminho que garanta a sustentabilidade das organizações muito embora algumas delas, cresceram e continuam a operar sem uma estratégia definida, mercê de um mercado com margens ainda confortáveis. Perdoem-me a figura de retórica, mas ainda somos o parente rico do retalho.

Contextualizar o estado de stress e ansiedade a que foram expostas às pessoas nesta pandemia passa pelo entendimento dos intermináveis desafios a que todos estamos a sujeitos. O fato de compreendermos a obrigatoriedade do isolamento não nos isenta do sentimento de insegurança, responsável por um sem número de perturbações psicológicas. O medo de sermos contagiados pelo vírus, o medo de perdermos o emprego ou o medo de sermos incapazes de ultrapassar a crise que se avizinha, torna-nos vulneráveis e o impacto sobre a saúde mental é incomensurável. Os conflitos em ambientes profissionais podem ocorrer com maior facilidade e a produtividade será afetada. A nova realidade vem salientar a responsabilidade da sociedade em estabelecer metas mais exigentes para os cuidados da saúde mental aos que viveram experiências traumatizantes. Esta é uma geração que no espaço de 10 anos foi sujeita a duas grandes crises sociais e económicas. Também facilmente percebemos como a frequência destes fenómenos disruptivos tendem a aumentar, apesar de a sua duração ser inferior. Dar a atenção ao bem-estar das equipas, é fazer um investimento no futuro. 

O esforço na manutenção do quotidiano, está a alterar estruturalmente a forma como produzimos. Veja-se o regime do teletrabalho e a uma escala global, o investimento das empresas do IT, na corrida às novas tecnologias para ao apoio à medicina. A vacina irá trazer de novo o sentimento de confiança e segurança. Não existem soluções milagrosas e seremos todos confrontados com desafios que colocarão à prova a resiliência. Nenhuma medida que venha a ser tomada poderá restabelecer na íntegra o património perdido. Ainda que a vida venha a retomar a normalidade, recalibrar o azimute numa orientação mais humanista dos negócios, deveria ser o próximo processo de aprendizagem. Não deveríamos continuar a caminhar indiferentes às assimetrias grosseiras que nos rodeiam.  


Rui Motty,
CEO Optocentro
Optometrista
DICAS
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